Neste Blog encontraremos uma espaço de discussão sobre Psicanálise, Psicoterapia, Neurociências, Psicologia do Desenvolvimento e Teoria dos Sistemas Não Lineares

sábado, maio 27, 2006

Pensamentos para o(s) dia(s) que corre(m)


The riddle traditionally attributed to the Sphinx is an expression of man's curiosity turned upon himself

[...]
curiosity has the same status in the myths of the garden of Eden and the Tower of Babel
- it is a Sin.



texto: Bion,1963 "elements of psychoanalysis"
imagem: Moreau, 1864, "Oedipus and the Sphinx"

Unfortunately the problem is complicated by a fact...that the analytic procedure itself is precisely a manifestation of the curiosity which is felt to be an intrinsic component of the disaster

texto: Bion,1957 "On Arrogance"

sexta-feira, maio 19, 2006

Ponto 1. A "Humanidade", as Humanidades, e o "paganismo virtuoso" (versão editada)

Correndo o risco de parecer um pouco Cartesiano, acho que vale a pena ir ponto por ponto nas propostas problemáticas do Bruno (Ferreira, B.; 4ª Feira, 17 Maio, Um a celebração e onze problemas), uma vez que a intensidade emocional destas experiências psicodinâmicas "virtuais" está a fazer com que o Caos atinga niveis tão elevados de complexidade que se aproximam já da alietoriedade.
Assim, e agora falando para o anónimo-simplex e todos os "homens comuns" :) afinal eu bem tinha razão que a referência Vaz-Santosiana à "psicanálise ao serviço da Humanidade"(Vaz-Santos, P.; 4ª Feira, 17 Maio "Linhas") trazia"água no bico" e era "um gato escondido com a cauda de fora".
Quero agora partilhar um excerto de um livro que ando a debicar aos poucos. Chama-se "Erasmus, Clote and More: The Early Tudor Humanists and their Books". Sobre o surgimento das "humanidades" enquanto linha pedagógica e vector de pensamento, eis o que me parece muito relevante para servir de atractor a algo do que aqui se tem alardoado:

The studia humanitatis made up a programme of study elaborated on the basis of what Cicero had had to say about a liberal education. Typically the programme comprised grammar, rhetoric, poetry and history, with moral philosophy. (Trapp, 1990, p. 2).
(Lembremos que Cicero era considerado um Pagão Virtuoso pelos primeiros organizadores da igreja cristã. São Agostinho citava-o copiosamente.)

Temos portanto a ênfase renascentista (inspirada no melhor da civilização paganista clássica), colocada na educação liberal, liberta de dogmas escolásticos, teocráticos e teocêntricos, focada na produção livre do espírito humano (poesia, retórica, gramática) e no pensamento sobre a história (a importância de elaborar a memória histórica dos grupos).
Assim, o "humanismo", quanto a mim, não tem nada que ver com o amor, mas sim com a liberdade de espírito, com o alimento da mente e não dos corações. E muito menos a ver com a "caridade" católica, que quanto a mim é apenas uma forma de perpetuar as injustiças e abusos sociais artificiais e produzidos pelas tiranias, aliviando um pouco a culpa (vidé também reparação maníaca de Klein). Quanto à crítica da "caridade católica" Nitschze argumentou muito bem na sua grande obra "O Anti-Cristo" e o Papa tem de comer ainda muito bacalhau filosófico e literário para as refutar.

O humanismo de que falo então, parece-me ter enquanto motivação emocional de base não uma base "caritativa"-amorosa, mas muito uma curiosidade prometaica, que é do domínio do gozo erótico-epistemofílico em "O". (Erótico no sentido de Eros-instinto de Vida Freudiano, Epistemofílico no sentido Kleiniano [i.e. com uma quota de agressividade], "O" no sentido Bioninano [gozo em sí-mesmo, para Além de K], e Gozo no sentido Lacaniano)
O domínio do Jogar a "Jouissance" intelectual, de jogar aos dados com "deus" ou os deuses.
Quanto muito terá a ver também no plano do "ethos" e não apenas no da emocionalidade básica, com uma forma radical de compaixão (amor) pelos semelhantes através do combate à tirania mental (uma forma de "saturação da pré-concepção") que (n) os mantém escravos de ideias e representações auto e hetero-flagelatórias impostas pelo aparelho disciplinador do poder (vide Foucault) e suas técnicas de ortopedia social que tanta infelicidade e doença mental geram, o qual se apodera das mentes através da reprodução propagandística do discurso hegemónico (vidé Gramsci).
Assim, "Humanidade", para mim é centração no homem e na mulher, e naquilo que lhes dá gozo; em termos intelectuais/mentais, o gozo de falar e pensar livremente: de fazer metáforas (poesia), de esgrimir argumentos (retórica), de jogar a linguagem pelas regras do jogo (gramática), em fim, de Imaginar ("imagination is more important than knowledge" - Albert Einstein)

E aqui volto a referir o preâmbulo da carta dos direitos humanos, a qual considero a forma publicada em senso comum e bom senso do que considero a "humanidade" (à qual se quiserem a psicanálise pode estar ao serviço, por mim não paga mais por isso) e o homem comum:


[...] um mundo em que os homens gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do homem comum [...]

quinta-feira, maio 18, 2006

Contribuição para os 7 primeiros pontos

São João da Cruz, Doutor da Igreja, propõe que a ascese ao Monte Carmelo se inicia pelo Noite Escura dos Sentido, isto é pela negação dos apetites ou por outras palavras do autor, pela mortificação dos sentidos.

En uma noite escura
Com ânsias em amores inflamada,
Ò ditosa ventura?
Sai sem ser notada
‘stando já minha casa sossegada.

São João da Cruz, propõe o sossego o apaziguamento da sensualidade. O anoitecer, que permite o a emergência do sonho, da ideia, não enquanto sensualidade, mas enquanto estética.

São João da Cruz, propõe um caminho de contemplação, que no fechar do olhar se vê e se descobre o outro, o conceito. No sentido de Bion estabelece-se um vínculo de verdade face á realidade e consequentemente ao conhecimento.

Gostaria de abordar desde já a primeira questão: a Humanidade.

No meu pequeno dicionário aparece o seguinte: conjunto de todos os homens; natureza humana, benevolência; clemência; estudos clássicos superiores

Interessante, Humanidade aparece primeiro enquanto grupo (conjunto), depois o conceito desloca-se para uma ideia mais biológica – natureza. Prosseguindo a leitura do dicionário encontramos benevolência e clemência, características associadas à tolerância a ao aceitar a diferença o outro. Continuando a leitura encontramos – estudos clássicos superiores. Extraindo-se a ideia que o estudo da clemência e da benevolência estaria revestido de uma certa sensibilidade major.

Esta associação faz-me pensar na primeira encíclica do Papa Bento VI – Deus Caritas Est (Deus é amor). O Santo Padre, num texto integralmente inovador e radical, vem defender a unidade do amor.

Como não consegui envia um mail para o St Padre se registar neste Blog, tomei a liberdade de copiar um excerto da sua encíclica:

“Em primeiro lugar, recordemos o vasto campo semântico da palavra « amor »: fala-se de amor da pátria, amor à profissão, amor entre amigos, amor ao trabalho, amor entre pais e filhos, entre irmãos e familiares, amor ao próximo e amor a Deus. Em toda esta gama de significados, porém, o amor entre o homem e a mulher, no qual concorrem indivisivelmente corpo e alma e se abre ao ser humano uma promessa de felicidade que parece irresistível, sobressai como arquétipo de amor por excelência, de tal modo que, comparados com ele, à primeira vista todos os demais tipos de amor se ofuscam. Surge então a questão: todas estas formas de amor no fim de contas unificam-se sendo o amor, apesar de toda a diversidade das suas manifestações, em última instância um só, ou, ao contrário, utilizamos uma mesma palavra para indicar realidades totalmente diferentes?
« Eros » e « agape » – diferença e unidade
3. Ao amor entre homem e mulher, que não nasce da inteligência e da vontade mas de certa forma impõe-se ao ser humano, a Grécia antiga deu o nome de eros. Diga-se desde já que o Antigo Testamento grego usa só duas vezes a palavra eros, enquanto o Novo Testamento nunca a usa: das três palavras gregas relacionadas com o amor — eros, philia (amor de amizade) e agape — os escritos neo-testamentários privilegiam a última, que, na linguagem grega, era quase posta de lado. Quanto ao amor de amizade (philia), este é retomado com um significado mais profundo no Evangelho de João para exprimir a relação entre Jesus e os seus discípulos. A marginalização da palavra eros, juntamente com a nova visão do amor que se exprime através da palavra agape, denota sem dúvida, na novidade do cristianismo, algo de essencial e próprio relativamente à compreensão do amor. Na crítica ao cristianismo que se foi desenvolvendo com radicalismo crescente a partir do iluminismo, esta novidade foi avaliada de forma absolutamente negativa. Segundo Friedrich Nietzsche, o cristianismo teria dado veneno a beber ao eros, que, embora não tivesse morrido, daí teria recebido o impulso para degenerar em vício. [1] Este filósofo alemão exprimia assim uma sensação muito generalizada: com os seus mandamentos e proibições, a Igreja não nos torna porventura amarga a coisa mais bela da vida? Porventura não assinala ela proibições precisamente onde a alegria, preparada para nós pelo Criador, nos oferece uma felicidade que nos faz pressentir algo do Divino?
4. Mas, será mesmo assim? O cristianismo destruiu verdadeiramente o eros? Vejamos o mundo pré-cristão. Os gregos — aliás de forma análoga a outras culturas — viram no eros sobretudo o inebriamento, a subjugação da razão por parte duma « loucura divina » que arranca o homem das limitações da sua existência e, neste estado de transtorno por uma força divina, faz-lhe experimentar a mais alta beatitude. Deste modo, todas as outras forças quer no céu quer na terra resultam de importância secundária: « Omnia vincit amor — o amor tudo vence », afirma Virgílio nas Bucólicas e acrescenta: « et nos cedamus amori — rendamo-nos também nós ao amor ». [2] Nas religiões, esta posição traduziu-se nos cultos da fertilidade, aos quais pertence a prostituição « sagrada » que prosperava em muitos templos. O eros foi, pois, celebrado como força divina, como comunhão com o Divino.
A esta forma de religião, que contrasta como uma fortíssima tentação com a fé no único Deus, o Antigo Testamento opôs-se com a maior firmeza, combatendo-a como perversão da religiosidade. Ao fazê-lo, porém, não rejeitou de modo algum o eros enquanto tal, mas declarou guerra à sua subversão devastadora, porque a falsa divinização do eros, como aí se verifica, priva-o da sua dignidade, desumaniza-o. De facto, no templo, as prostitutas, que devem dar o inebriamento do Divino, não são tratadas como seres humanos e pessoas, mas servem apenas como instrumentos para suscitar a « loucura divina »: na realidade, não são deusas, mas pessoas humanas de quem se abusa. Por isso, o eros inebriante e descontrolado não é subida, « êxtase » até ao Divino, mas queda, degradação do homem. Fica assim claro que o eros necessita de disciplina, de purificação para dar ao homem, não o prazer de um instante, mas uma certa amostra do vértice da existência, daquela beatitude para que tende todo o nosso ser.”
O St Padre propõe o que me parece demais pertinente, o conceito, o vínculo estabelece-se na união de Eros e Agape. Eros que liga que toca e Ágape que contempla que olha para dentro no sentido de reconhecimento pelo outro.

-- Fim de Citação

A função de conhecer está nesta unidade Eros + Ágape. No colo que nos olha e nos responde e que no silêncio nos faz pensar. No código de Bion neste L+, que promove o amor à verdade na modalidade K+.

….. voilá o anónimo deixou de ser anónimo, revelou-se. Já descobrimos quem é que ele é.

O outro que nos picou, nos perturbou, nos fez cometer erros ortográficos, nos empurrou para a frente. O anónimo moveu-nos.

Espero que tenha contribuído para a discussão dos primeiros 7 pontos anotados pelo Bruno.

terça-feira, maio 16, 2006

Beyond Trauma - making sense of a nonsensical past

Caros Amigos,

Peter Wilson é um exclente psicanalísta britânico que tem trabalhado com crianças vitimas de maus tratos em comuniades terapêuticas de crianças. Recentemente o Peter Wilson a convite do John Diamond proferiu uma conferência intitulada - Beyond Trauma - making sense of a nonsensical past, nas celebrações anuais da Mulberry Busch.

fica a conferência para escutar com atenção:
Conferência

Proposta de Leitura

Meus caros amigos nos últimos tempos tenho andado a ler uma coisas sobre psicanálise e organizações, e sobre os trabalhos desenvolvidos pelo Instituto Tavistock, e mais recentemente pela serviço de consultoria da Clínica Tavistock.

Gostaria aqui de deixar uma excelente proposta de leitura. The Unconsciuos at Work editado por Anton Obholzer e Veja Zagier Roberts. A ideias deste livro são elaboradas tendo por base os trabalhos do Bion sobre grupos, as conferências de “group relations”, psicanálise e teoria dos sistemas abertos.

Como vêem o background teórico do livro é exactamente o nosso.

quinta-feira, maio 11, 2006

Linhas

O meu último post, provocou um excelente comentário por parte do Bruno, vale a pena ler. Gostava de afirmar que sou um entusiasta da teoria dos sistemas e dos modelos não lineares. A teoria dos sistemas complexos, permite-nos um novo olhar sobre a dinâmica dos sistemas, como estes fogem da entropia (morte termodinâmica), e sobrevivem em estados de equilíbrio não homeostático. Os sistemas dinâmicos complexos, são portadores de uma certa “criatividades” nas formas e padrões que desenvolvem para dissiparem de forma mais eficaz energia, como refere Prigogine.

A psicanálise, tem como é evidente muito a aprender com estes modelos provenientes da física. Neste sentido não fiz uma crítica à associação entre a física e a psicanálise. O que tentei sublinhar é a importância de tornar o pensamento psicanalítico claro e acessível ao Homem. É importante devolver à comunidade uma resposta um ideia. Algo que a comunidade possa importar e usar no seu processo de crescimento.

Por outras palavras, parece-me que a psicanálise enquanto ciência deve estar ao serviço da Humanidade.

segunda-feira, maio 08, 2006

A propósito de um novo Blog de Psicanálise!

O meu sempre amigo Bruno, convidou-me para este seu projecto de escrever umas linhas sobre psicanálise, neurociências e teoria dos sistemas. Confesso que não “ainda” sei resistir às ousadias do Bruno, nem ao seu esforço amplo de integração de várias áreas do conhecimento.

Este esforço ambicioso do Bruno, ao contrário do que pode parecer à primeira vista não está revestido de qualquer pioneirismo. Na verdade Freud, iniciou o seu projecto de uma “psicologia científica” partindo da neurologia, olhando-a pelas teorias, na altura modernas, da termodinâmica e da física linear. Freud fala-nos de forças e cargas contrárias, que se atraem e que repudiam, de sistemas de vasos comunicantes que procuram equilíbrios. Freud olha a psi com olhas de quem ama a ciência. Neste sentido Freud abandona o método de regressão hipnótica, construindo o método de associação livre, mais consciente, mais palpável.

Freud, olha sem receios o Homem, olhando para o seu interior, para os suas angústias, para os seus não ditos, com olhos de quem quer tornar ciência e por isso de quem quer tornar consciência e conhecimento. Neste sentido Freud vira as costas ao obscurantismo, ao cinzento, abraçando de forma única o gosto pela clareza dos processos mentais.

Este é na minha opinião a melhor qualidade de Freud o gosto inalcançável de criar sentidos claros de simplificar, o que num primeiro olhar parece complexo. À semelhança do que muitos dos autores da matemática moderna que olharam os fenómenos complexos e caóticos, na procura de algumas leis simples que expliquem a complexidade fenomenológica de sistemas complexos como a turbilhão de um fluído, a ser escoado por um ralo de uma banheira.

Nesta linha de pensamento gostaria de reafirmar que mais do que a amplitude temática que este blog abrange, parece ser a sua mais valia a sua função de tornar claro e compreensível o que num primeiro momento parece complicado. Estou certo que é isso que vai acontecer.

Um Abraço a Todos os Leitores!!
http://www.criancasemperigo.com