São João da Cruz, Doutor da Igreja, propõe que a ascese ao Monte Carmelo se inicia pelo Noite Escura dos Sentido, isto é pela negação dos apetites ou por outras palavras do autor, pela mortificação dos sentidos.
En uma noite escura
Com ânsias em amores inflamada,
Ò ditosa ventura?
Sai sem ser notada
‘stando já minha casa sossegada.
São João da Cruz, propõe o sossego o apaziguamento da sensualidade. O anoitecer, que permite o a emergência do sonho, da ideia, não enquanto sensualidade, mas enquanto estética.
São João da Cruz, propõe um caminho de contemplação, que no fechar do olhar se vê e se descobre o outro, o conceito. No sentido de Bion estabelece-se um vínculo de verdade face á realidade e consequentemente ao conhecimento.
Gostaria de abordar desde já a primeira questão: a Humanidade.
No meu pequeno dicionário aparece o seguinte: conjunto de todos os homens; natureza humana, benevolência; clemência; estudos clássicos superiores
Interessante, Humanidade aparece primeiro enquanto grupo (conjunto), depois o conceito desloca-se para uma ideia mais biológica – natureza. Prosseguindo a leitura do dicionário encontramos benevolência e clemência, características associadas à tolerância a ao aceitar a diferença o outro. Continuando a leitura encontramos – estudos clássicos superiores. Extraindo-se a ideia que o estudo da clemência e da benevolência estaria revestido de uma certa sensibilidade major.
Esta associação faz-me pensar na primeira encíclica do Papa Bento VI – Deus Caritas Est (Deus é amor). O Santo Padre, num texto integralmente inovador e radical, vem defender a unidade do amor.
Como não consegui envia um mail para o St Padre se registar neste Blog, tomei a liberdade de copiar um excerto da sua encíclica:
“Em primeiro lugar, recordemos o vasto campo semântico da palavra « amor »: fala-se de amor da pátria, amor à profissão, amor entre amigos, amor ao trabalho, amor entre pais e filhos, entre irmãos e familiares, amor ao próximo e amor a Deus. Em toda esta gama de significados, porém, o amor entre o homem e a mulher, no qual concorrem indivisivelmente corpo e alma e se abre ao ser humano uma promessa de felicidade que parece irresistível, sobressai como arquétipo de amor por excelência, de tal modo que, comparados com ele, à primeira vista todos os demais tipos de amor se ofuscam. Surge então a questão: todas estas formas de amor no fim de contas unificam-se sendo o amor, apesar de toda a diversidade das suas manifestações, em última instância um só, ou, ao contrário, utilizamos uma mesma palavra para indicar realidades totalmente diferentes?
« Eros » e « agape » – diferença e unidade
3. Ao amor entre homem e mulher, que não nasce da inteligência e da vontade mas de certa forma impõe-se ao ser humano, a Grécia antiga deu o nome de eros. Diga-se desde já que o Antigo Testamento grego usa só duas vezes a palavra eros, enquanto o Novo Testamento nunca a usa: das três palavras gregas relacionadas com o amor — eros, philia (amor de amizade) e agape — os escritos neo-testamentários privilegiam a última, que, na linguagem grega, era quase posta de lado. Quanto ao amor de amizade (philia), este é retomado com um significado mais profundo no Evangelho de João para exprimir a relação entre Jesus e os seus discípulos. A marginalização da palavra eros, juntamente com a nova visão do amor que se exprime através da palavra agape, denota sem dúvida, na novidade do cristianismo, algo de essencial e próprio relativamente à compreensão do amor. Na crítica ao cristianismo que se foi desenvolvendo com radicalismo crescente a partir do iluminismo, esta novidade foi avaliada de forma absolutamente negativa. Segundo Friedrich Nietzsche, o cristianismo teria dado veneno a beber ao eros, que, embora não tivesse morrido, daí teria recebido o impulso para degenerar em vício.
[1] Este filósofo alemão exprimia assim uma sensação muito generalizada: com os seus mandamentos e proibições, a Igreja não nos torna porventura amarga a coisa mais bela da vida? Porventura não assinala ela proibições precisamente onde a alegria, preparada para nós pelo Criador, nos oferece uma felicidade que nos faz pressentir algo do Divino?
4. Mas, será mesmo assim? O cristianismo destruiu verdadeiramente o eros? Vejamos o mundo pré-cristão. Os gregos — aliás de forma análoga a outras culturas — viram no eros sobretudo o inebriamento, a subjugação da razão por parte duma « loucura divina » que arranca o homem das limitações da sua existência e, neste estado de transtorno por uma força divina, faz-lhe experimentar a mais alta beatitude. Deste modo, todas as outras forças quer no céu quer na terra resultam de importância secundária: « Omnia vincit amor — o amor tudo vence », afirma Virgílio nas Bucólicas e acrescenta: « et nos cedamus amori — rendamo-nos também nós ao amor ».
[2] Nas religiões, esta posição traduziu-se nos cultos da fertilidade, aos quais pertence a prostituição « sagrada » que prosperava em muitos templos. O eros foi, pois, celebrado como força divina, como comunhão com o Divino.
A esta forma de religião, que contrasta como uma fortíssima tentação com a fé no único Deus, o Antigo Testamento opôs-se com a maior firmeza, combatendo-a como perversão da religiosidade. Ao fazê-lo, porém, não rejeitou de modo algum o eros enquanto tal, mas declarou guerra à sua subversão devastadora, porque a falsa divinização do eros, como aí se verifica, priva-o da sua dignidade, desumaniza-o. De facto, no templo, as prostitutas, que devem dar o inebriamento do Divino, não são tratadas como seres humanos e pessoas, mas servem apenas como instrumentos para suscitar a « loucura divina »: na realidade, não são deusas, mas pessoas humanas de quem se abusa. Por isso, o eros inebriante e descontrolado não é subida, « êxtase » até ao Divino, mas queda, degradação do homem. Fica assim claro que o eros necessita de disciplina, de purificação para dar ao homem, não o prazer de um instante, mas uma certa amostra do vértice da existência, daquela beatitude para que tende todo o nosso ser.”
O St Padre propõe o que me parece demais pertinente, o conceito, o vínculo estabelece-se na união de Eros e Agape. Eros que liga que toca e Ágape que contempla que olha para dentro no sentido de reconhecimento pelo outro.
-- Fim de Citação
A função de conhecer está nesta unidade Eros + Ágape. No colo que nos olha e nos responde e que no silêncio nos faz pensar. No código de Bion neste L+, que promove o amor à verdade na modalidade K+.
….. voilá o anónimo deixou de ser anónimo, revelou-se. Já descobrimos quem é que ele é.
O outro que nos picou, nos perturbou, nos fez cometer erros ortográficos, nos empurrou para a frente. O anónimo moveu-nos.
Espero que tenha contribuído para a discussão dos primeiros 7 pontos anotados pelo Bruno.