Neste Blog encontraremos uma espaço de discussão sobre Psicanálise, Psicoterapia, Neurociências, Psicologia do Desenvolvimento e Teoria dos Sistemas Não Lineares

quinta-feira, maio 18, 2006

Contribuição para os 7 primeiros pontos

São João da Cruz, Doutor da Igreja, propõe que a ascese ao Monte Carmelo se inicia pelo Noite Escura dos Sentido, isto é pela negação dos apetites ou por outras palavras do autor, pela mortificação dos sentidos.

En uma noite escura
Com ânsias em amores inflamada,
Ò ditosa ventura?
Sai sem ser notada
‘stando já minha casa sossegada.

São João da Cruz, propõe o sossego o apaziguamento da sensualidade. O anoitecer, que permite o a emergência do sonho, da ideia, não enquanto sensualidade, mas enquanto estética.

São João da Cruz, propõe um caminho de contemplação, que no fechar do olhar se vê e se descobre o outro, o conceito. No sentido de Bion estabelece-se um vínculo de verdade face á realidade e consequentemente ao conhecimento.

Gostaria de abordar desde já a primeira questão: a Humanidade.

No meu pequeno dicionário aparece o seguinte: conjunto de todos os homens; natureza humana, benevolência; clemência; estudos clássicos superiores

Interessante, Humanidade aparece primeiro enquanto grupo (conjunto), depois o conceito desloca-se para uma ideia mais biológica – natureza. Prosseguindo a leitura do dicionário encontramos benevolência e clemência, características associadas à tolerância a ao aceitar a diferença o outro. Continuando a leitura encontramos – estudos clássicos superiores. Extraindo-se a ideia que o estudo da clemência e da benevolência estaria revestido de uma certa sensibilidade major.

Esta associação faz-me pensar na primeira encíclica do Papa Bento VI – Deus Caritas Est (Deus é amor). O Santo Padre, num texto integralmente inovador e radical, vem defender a unidade do amor.

Como não consegui envia um mail para o St Padre se registar neste Blog, tomei a liberdade de copiar um excerto da sua encíclica:

“Em primeiro lugar, recordemos o vasto campo semântico da palavra « amor »: fala-se de amor da pátria, amor à profissão, amor entre amigos, amor ao trabalho, amor entre pais e filhos, entre irmãos e familiares, amor ao próximo e amor a Deus. Em toda esta gama de significados, porém, o amor entre o homem e a mulher, no qual concorrem indivisivelmente corpo e alma e se abre ao ser humano uma promessa de felicidade que parece irresistível, sobressai como arquétipo de amor por excelência, de tal modo que, comparados com ele, à primeira vista todos os demais tipos de amor se ofuscam. Surge então a questão: todas estas formas de amor no fim de contas unificam-se sendo o amor, apesar de toda a diversidade das suas manifestações, em última instância um só, ou, ao contrário, utilizamos uma mesma palavra para indicar realidades totalmente diferentes?
« Eros » e « agape » – diferença e unidade
3. Ao amor entre homem e mulher, que não nasce da inteligência e da vontade mas de certa forma impõe-se ao ser humano, a Grécia antiga deu o nome de eros. Diga-se desde já que o Antigo Testamento grego usa só duas vezes a palavra eros, enquanto o Novo Testamento nunca a usa: das três palavras gregas relacionadas com o amor — eros, philia (amor de amizade) e agape — os escritos neo-testamentários privilegiam a última, que, na linguagem grega, era quase posta de lado. Quanto ao amor de amizade (philia), este é retomado com um significado mais profundo no Evangelho de João para exprimir a relação entre Jesus e os seus discípulos. A marginalização da palavra eros, juntamente com a nova visão do amor que se exprime através da palavra agape, denota sem dúvida, na novidade do cristianismo, algo de essencial e próprio relativamente à compreensão do amor. Na crítica ao cristianismo que se foi desenvolvendo com radicalismo crescente a partir do iluminismo, esta novidade foi avaliada de forma absolutamente negativa. Segundo Friedrich Nietzsche, o cristianismo teria dado veneno a beber ao eros, que, embora não tivesse morrido, daí teria recebido o impulso para degenerar em vício. [1] Este filósofo alemão exprimia assim uma sensação muito generalizada: com os seus mandamentos e proibições, a Igreja não nos torna porventura amarga a coisa mais bela da vida? Porventura não assinala ela proibições precisamente onde a alegria, preparada para nós pelo Criador, nos oferece uma felicidade que nos faz pressentir algo do Divino?
4. Mas, será mesmo assim? O cristianismo destruiu verdadeiramente o eros? Vejamos o mundo pré-cristão. Os gregos — aliás de forma análoga a outras culturas — viram no eros sobretudo o inebriamento, a subjugação da razão por parte duma « loucura divina » que arranca o homem das limitações da sua existência e, neste estado de transtorno por uma força divina, faz-lhe experimentar a mais alta beatitude. Deste modo, todas as outras forças quer no céu quer na terra resultam de importância secundária: « Omnia vincit amor — o amor tudo vence », afirma Virgílio nas Bucólicas e acrescenta: « et nos cedamus amori — rendamo-nos também nós ao amor ». [2] Nas religiões, esta posição traduziu-se nos cultos da fertilidade, aos quais pertence a prostituição « sagrada » que prosperava em muitos templos. O eros foi, pois, celebrado como força divina, como comunhão com o Divino.
A esta forma de religião, que contrasta como uma fortíssima tentação com a fé no único Deus, o Antigo Testamento opôs-se com a maior firmeza, combatendo-a como perversão da religiosidade. Ao fazê-lo, porém, não rejeitou de modo algum o eros enquanto tal, mas declarou guerra à sua subversão devastadora, porque a falsa divinização do eros, como aí se verifica, priva-o da sua dignidade, desumaniza-o. De facto, no templo, as prostitutas, que devem dar o inebriamento do Divino, não são tratadas como seres humanos e pessoas, mas servem apenas como instrumentos para suscitar a « loucura divina »: na realidade, não são deusas, mas pessoas humanas de quem se abusa. Por isso, o eros inebriante e descontrolado não é subida, « êxtase » até ao Divino, mas queda, degradação do homem. Fica assim claro que o eros necessita de disciplina, de purificação para dar ao homem, não o prazer de um instante, mas uma certa amostra do vértice da existência, daquela beatitude para que tende todo o nosso ser.”
O St Padre propõe o que me parece demais pertinente, o conceito, o vínculo estabelece-se na união de Eros e Agape. Eros que liga que toca e Ágape que contempla que olha para dentro no sentido de reconhecimento pelo outro.

-- Fim de Citação

A função de conhecer está nesta unidade Eros + Ágape. No colo que nos olha e nos responde e que no silêncio nos faz pensar. No código de Bion neste L+, que promove o amor à verdade na modalidade K+.

….. voilá o anónimo deixou de ser anónimo, revelou-se. Já descobrimos quem é que ele é.

O outro que nos picou, nos perturbou, nos fez cometer erros ortográficos, nos empurrou para a frente. O anónimo moveu-nos.

Espero que tenha contribuído para a discussão dos primeiros 7 pontos anotados pelo Bruno.

8 Comments:

Blogger Bruxa de Endor said...

Li este post ontem e tive que dormir sobre o assunto para ver se conseguia dar resposta... Já me acalmei, também para mim foi muito difícil ver não apenas Bion como Nietzche envolvidos neste menage à trois com o Ratzinger.

Mas enfim, deve de ser preconceito ou preciosismo da minha parte mas ainda assim acho que este post é uma mistura que não se faz uma vez que não se mistura fé com conhecimento. Digo então para o Pedro que o que escrevo aqui nada tem a ver com a fé dele mas sim com o objectivo deste blog que é o da partilha e da inquirição numa tentativa compartilhada de continuarmos a aprender uns com os outros e com aqueles que vamos trazendo na forma de trabalhos e artigos.

Em primeiro lugar quero apontar um erro do ponto de vista antropológico e histórico no que diz respeito aos cultos da fertilidade feitos pelos politeistas pré e pós cristãos que nada tem a ver com qualquer tipo de conceito de prostituição, isso é treta católica apostólica romana que foi sendo veiculada aquando da implantação do cristianismo e mais tarde do catolicismo entre os povos indo-europeus. Histórias do bicho papão para meter medo a crianças, nada mais do que isso.

Quanto à questão da inclusão do texto do Ratzinger, desculpem mas chamar de santo é que não dá mesmo, penso que a Igreja Católica em especial e o Cristianismo em particular têm servido antes de mais como um boicote severo ao conhecimento e o movimento contrário nunca se deu, a Idade Média é um exemplo longuinquo mas a segunda Guerra Mundial é um exemplo bastante mais próximo e poderia por aqui outros mas o assunto costuma deixar-me doente, portanto não vale a pena.

A Igreja católica também não pode produzir qualquer tipo de conhecimento acerca do amor pois que se dedica à produção de moralidade e de ética sobre o mesmo numa tentativa cada vez mais desesperada de controlar manifestações e comportamentos humanos que levam à rebelião das pessoas contra as regras controladoras e desumanas da Igreja. O catolicismo, como o Bruno muito bem apontou, produz magia e ritual supostamente mégico bem como uma fuga ao instinto e á própria natureza através dessa magia de trazer por casa... Enfim, nada disto é conectável a Bion e quanto a Nietzche os seus argumentos nunca foram fracos e miuto menos infundados, tentar ligar dois Homens que dedicaram a sua vida ao conhecimento com uma enciclica papal e dizer que o papa não só percebe do assunto "amor" como ainda afirmar que ele chega a K+ é errado. O Ratzinger homem talvez lá possa chegar, o papa é uma instituição e as enciclicas a mesma coisa, diz-se o que se pode mas não se diz a verdade e o que menos interessa à instituição é que o conhecimento entre os crentes aumente em demasia não vá a instituição colapsar. Bastará dizer que existe um principio católico que diz que o papa, enquanto representante do divino, não se engana nunca... Isto, meus caros é lei para qualquer católico, já é azar é que o João Paulo II teve que pedir desculpas pelos erros dos seus antecessores, só se esqueceu foi de revogar esta lei que diz que eles não se enganam. Se isto é caminho para o conhecimento eu sou uma ignorante de primeira e ainda por cima com muito orgulho de o ser.

Quanto à pequena história com que se inicia o post, só resta saber se o santinho se masturbou ou se decidiu flagelar-se para conseguir acalmar as carnes.Essa parte ficou por explicar, por conhecimento de alguma coisa é que não foi porque nem na biblia é afirmado que os padres e os santinhos tenham que ter abstinência sexual para serem homens virtuosos.

Enfim, agora não me apetece dizer mais nada sobre isto que não dizer ao Pedro mais uma vez que o meu comentário não é um desrespeito para com a sua fé mas um acto de respeito para com o conhecimento. Desculpem qualquer coisinha que tenha saido menos boa.

7:15 p.m.

 
Blogger Nuno Torres said...

"e pure si mouve" (comentário de Galileu para sí próprio depois de ter sido obrigado a abnegar as suas observações de que a terra girava em torno do sol, sob ameaça de fogueira)

O que eu acho é que precisamos de nos juntar o beber uma bjecas valentes, e passar uma noite aos gritos e aos murros na mesa, sem esquecer lançar perdigotos na tromba uns dos outros.

Só quero dizer uma coisa em relação ao post do Vaz Santos:
aqui há uns dias postei num outro blog uma imagem da Sinnead O'Connor a rasgar uma foto do papa.

Não tenho mais nada a dizer sobre a Igreja Católica Apostólica Romana além disto.

Para mim a espiritualidade não se mistura com o conhecimento, e o conhecimento não se mistura com a espiritualidade,ponto final.

Gerard Endelman no seu livro "bright air billiant fire" clarifica esta questão muito bem.

No outro dia estive a refutar um amigo que achava que era necessário descontruir o sentimento religioso em si-próprio para libertar as pessoas das tiranias e injustiças sociais fomentadas e apoiadas pelas religiões instituidas.

Não é possivel descontruir o sentimento espiritual/religioso, ele é impermeável à razão, assim como a agressividade, a sede de poder, o sexo, e o amor.

São coisas em si.

A mente indaga sobre elas sem se deixar submergir por elas e sem as tentar secar. Quando o faz deixou de ser mente, passou a ser prescrição de comportamentos, funcionalismo social.

Quanto à prescrição de comportamentos, as únicas revelações religiosas que aceito e que me merecem Devoção são as maximas Pagãs:

-Harm no one, do what you will

-Practice random acts of kindness and senseless acts of beauty.

com muitos perdigotos e gritos,
do vosso amigo.

9:51 p.m.

 
Blogger Nuno Torres said...

Não é verdade que as Únicas máximas espirituais que me mereçem devoção são essas, mas também grande parte das descobertas de Buda e dos indagadores Zen.

JC, o anarquista iluminado também me mereçe respeito e a importância do perdão por exemplo, acho muito importante.

Sou bastante ignorante neste respeito, mas gosto de muitas ideias de todas as tradições espirituais de todo o mundo.

A minha Igreja é a Esfera Armilar, ou seja, o Planeta. Os meus irmãos e irmãs são os seres que a habitam.

A bília que tento ler é a do Pentecostes, comunicação direta, sem taxas eclesiásticas adicionais.

A letra Mata, o Espírito Vivifica.

10:25 p.m.

 
Blogger Nuno Torres said...

MAIS:

E curioso que no excerto do Papa sobre o amor, ele comete dois erros fundamentais que revelam a sua ignorancia tanto sobre o paganismo grego, bem como sobre a sua propria religiao:

Em primeiro lugar eros nao e' apenas o amor entre um homem e uma mulher, mas sim uma forca primordial:

"the creative urge of ever-flowing nature, the first-born Light that is responsible for the coming into being and ordering of all things in the cosmos. In Hesiod's Theogony, the most famous Greek creation myth, Eros sprang forth from the primordial Chaos together with Gaia, the Earth, and Tartarus, the underworld"

EM SEGUNDO LUGAR, ao referir-se apenas ao Antigo Testamento esta a negar propriamente aquilo que o faz ser quem e'. E' suposto ser Pedro-discipulo de Cristo, nao um Judeu discipulo de Moises.

JC veio actualizar a lei Moisaica, que perdeu a partir dai para os seus seguidores toda a importancia relativamente ao que segundo JC e' verdadeiramente importante.

Em termos sociais eu vejo isto da seguinte maneira: JC vem propor que as pessoas vivam harmoniosamente em conjunto NAO por medo dos Mandamentos e do castigo de deus mas por genuino respeito e gosto de estar umas com as outras.

Vir apoiar-se no antigo testamento para falar de amor parece-me de uma grande gravidade ao nivel da regressao social a uma Imago de deus caracteristica da posicao esquizo-paranoide.

Pedro, abre os olhos, este Papa e' muito ma' onda.

3:13 p.m.

 
Blogger Nuno Torres said...

Há, e claro que sim Bruno, BORÁÍ PRÁS BJEcas, que dizer isto sem gritos e perdigotos não tem piada, nem efeito exorcisticó-catártico nenhum!
:)

7:00 p.m.

 
Blogger Nuno Torres said...

Vai ser fixe, o Vaz Santos de um lado com uma T-shirt do Ratzinger, o Rotweiller de Deus, e o resto do pessoal do outro, e ambos os lados a tentar exorcizar os demónios um do outro à base de perdigotos e gritos!
(mas nós os luciferianos temos que nos revezar, pois temo que o Vaz-Santos fale mais e mais rápido do que todos nós juntos)
he he he
:)
zunga

7:03 p.m.

 
Blogger Nuno Torres said...

Podes Crer.

Tenho ainda coisas a dizer, mas queria sublinhar que tal como o Bruno e A estranha referiram, e eu me esqueci por distraccao, sao apenas argumentos contra ideias veiculadas e nao contra as pessoas que as veiculam,
neste caso o meu grande amigo Pedro Vaz Santos que muito prezo.

SOBRE A DEMONIZACAO DO PAGANISMO
concordo com o que foi dito acima pela estranha.

Alem disso queria acrescentar que todos os rituais cristaos, desde o natal ate ao dias de todos os santos, passando pela pascoa, sao apropriacoes de rituais pagaos que procuram celebrar e simbolizar a alianca entre o espirito humano, o seu corpo e o seu planeta.

SOBRE A INFANTILIZACAO DAS MENTES
que o Bruno muito bem referiu como programa catolico romano, concordo com essa ideia, e costumo elabora-la atraves das ideias de pressuposto basico de Bion, neste caso concreto o de Dependencia.

A este respeito, proponho a re-leitura de Kierkegaard e a sua elaboracao sobre os estadios existenciais humanos.

1:16 p.m.

 
Blogger Nuno Torres said...

"The idea of congregations keeps individuals as children since Christians are disinclined from taking the initiative to take responsibility for their own relation to God."

in "Kierkegaard and Christendom"

http://en.wikipedia.org/wiki/Kierkegaard

1:53 p.m.

 

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