Neste Blog encontraremos uma espaço de discussão sobre Psicanálise, Psicoterapia, Neurociências, Psicologia do Desenvolvimento e Teoria dos Sistemas Não Lineares

sexta-feira, maio 19, 2006

Ponto 1. A "Humanidade", as Humanidades, e o "paganismo virtuoso" (versão editada)

Correndo o risco de parecer um pouco Cartesiano, acho que vale a pena ir ponto por ponto nas propostas problemáticas do Bruno (Ferreira, B.; 4ª Feira, 17 Maio, Um a celebração e onze problemas), uma vez que a intensidade emocional destas experiências psicodinâmicas "virtuais" está a fazer com que o Caos atinga niveis tão elevados de complexidade que se aproximam já da alietoriedade.
Assim, e agora falando para o anónimo-simplex e todos os "homens comuns" :) afinal eu bem tinha razão que a referência Vaz-Santosiana à "psicanálise ao serviço da Humanidade"(Vaz-Santos, P.; 4ª Feira, 17 Maio "Linhas") trazia"água no bico" e era "um gato escondido com a cauda de fora".
Quero agora partilhar um excerto de um livro que ando a debicar aos poucos. Chama-se "Erasmus, Clote and More: The Early Tudor Humanists and their Books". Sobre o surgimento das "humanidades" enquanto linha pedagógica e vector de pensamento, eis o que me parece muito relevante para servir de atractor a algo do que aqui se tem alardoado:

The studia humanitatis made up a programme of study elaborated on the basis of what Cicero had had to say about a liberal education. Typically the programme comprised grammar, rhetoric, poetry and history, with moral philosophy. (Trapp, 1990, p. 2).
(Lembremos que Cicero era considerado um Pagão Virtuoso pelos primeiros organizadores da igreja cristã. São Agostinho citava-o copiosamente.)

Temos portanto a ênfase renascentista (inspirada no melhor da civilização paganista clássica), colocada na educação liberal, liberta de dogmas escolásticos, teocráticos e teocêntricos, focada na produção livre do espírito humano (poesia, retórica, gramática) e no pensamento sobre a história (a importância de elaborar a memória histórica dos grupos).
Assim, o "humanismo", quanto a mim, não tem nada que ver com o amor, mas sim com a liberdade de espírito, com o alimento da mente e não dos corações. E muito menos a ver com a "caridade" católica, que quanto a mim é apenas uma forma de perpetuar as injustiças e abusos sociais artificiais e produzidos pelas tiranias, aliviando um pouco a culpa (vidé também reparação maníaca de Klein). Quanto à crítica da "caridade católica" Nitschze argumentou muito bem na sua grande obra "O Anti-Cristo" e o Papa tem de comer ainda muito bacalhau filosófico e literário para as refutar.

O humanismo de que falo então, parece-me ter enquanto motivação emocional de base não uma base "caritativa"-amorosa, mas muito uma curiosidade prometaica, que é do domínio do gozo erótico-epistemofílico em "O". (Erótico no sentido de Eros-instinto de Vida Freudiano, Epistemofílico no sentido Kleiniano [i.e. com uma quota de agressividade], "O" no sentido Bioninano [gozo em sí-mesmo, para Além de K], e Gozo no sentido Lacaniano)
O domínio do Jogar a "Jouissance" intelectual, de jogar aos dados com "deus" ou os deuses.
Quanto muito terá a ver também no plano do "ethos" e não apenas no da emocionalidade básica, com uma forma radical de compaixão (amor) pelos semelhantes através do combate à tirania mental (uma forma de "saturação da pré-concepção") que (n) os mantém escravos de ideias e representações auto e hetero-flagelatórias impostas pelo aparelho disciplinador do poder (vide Foucault) e suas técnicas de ortopedia social que tanta infelicidade e doença mental geram, o qual se apodera das mentes através da reprodução propagandística do discurso hegemónico (vidé Gramsci).
Assim, "Humanidade", para mim é centração no homem e na mulher, e naquilo que lhes dá gozo; em termos intelectuais/mentais, o gozo de falar e pensar livremente: de fazer metáforas (poesia), de esgrimir argumentos (retórica), de jogar a linguagem pelas regras do jogo (gramática), em fim, de Imaginar ("imagination is more important than knowledge" - Albert Einstein)

E aqui volto a referir o preâmbulo da carta dos direitos humanos, a qual considero a forma publicada em senso comum e bom senso do que considero a "humanidade" (à qual se quiserem a psicanálise pode estar ao serviço, por mim não paga mais por isso) e o homem comum:


[...] um mundo em que os homens gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do homem comum [...]

11 Comments:

Blogger Nuno Torres said...

ANALYSE THIS:

Olá, aqui estou eu outra vez.
Bom, vinha pela rua, estava a chover e a relva regozijava; encontrei o Bob Dylan no meu dossier de cd's pirata.
A musica "Highway 61" fez-me rir imenso.
Eis a parte da letra para o que aqui nos concerne;

"Oh God said to Abraham, "Kill me a son"
Abe says, "Man, you must be puttin' me on"
God say, "No."
Abe say, "What?"
God say,
"You can do what you want Abe, but
The next time you see me comin' you better run"

Well Abe says,
"Where do you want this killin' done?"

God says, "Out on Highway 61."
---
Bom, desejo a todos que encontrem esta canção, e se o fizerem, tomem atenção às sirenes-buzinas. Muito Importante.

5:25 p.m.

 
Blogger Nuno Torres said...

DEPOIS DA TEMPESTADE VEM A BONANÇA.

Depois da Pax Romanica, vieram as Invasões "bárbaras", e depois, o quê? a Paz Podre?

As coisas estão a ser digeridas, sim é certo, assim o espero. E aqui vai mais um alka-seltzer:

A canção do Bob Dylan, e o Bob Dylan ele-mesmo, são representativos da liberdade de espírito. Propûs a audição da canção por isso.

O Bob Dylan fez algumas canções de "protesto" social, ou que alguns interpretaram como de Protesto social.
Mas ele recusou-se sempre a pertencer a algum movimento, alguma congregação de activistas ou de conformistas.
Era apenas um escritor e cantor de canções, um bardo fiel à poesia e ao humor, ao desafio. Mais nada.

Quando começou a tocar guitarra electrica, alguns esquerdistas e puristas do Folk chamaram-lhe "Judas" ao vivo. Ele não se importou e continuou a fazer o que fazia bem.

Não vendeu a sua arte ao serviço de nenhuma tirania, seja ela de esquerda, de direita, do centro, do Alto ou do Baixo.
Continuou sempre a fazer as canções que lhe apetecia:
isto para mim é ser fiel ao espirito das "humanidades" de que fala Pazzini, e ao qual devemos o melhor da nossa civilização.

É isto que me preocupa hoje, seja na Psicanálise, na sociedade em geral, e nas mentes em particular.
Sermos capazes de nos manter ligados ao humano, nem ligadosapenas à terra nem apenas ao céu, mas sim ao humano na sua totalidade:

"Pés na terra, mente nas estrelas, olhos no caminho"

sem vender as forças de trabalho do nosso espirito a nenhuma congregação oficial, sejam elam as Sociedades Psicanalíticas, ou qualquer outra forma de congregação iniciática.

ISTO NÃO IMPLICA INDIVIDUALISMO, mas respeita o solipsismo. Isto significa que os individuos devem tratar-se como tal a cada encontro, e cooperar enquanto tal, enquanto rebentos de relva (grass roots), fazendo emergir significados novos adequados a cada encontro; aprender com a experiência a cada experiência.

Não deixarmos que a nossas mentes se tornem instrumentalizadas nem orgãos de propaganda de Impérios, organizações centralizadas, verticais, onde a comunicação "peer to peer" (entre pares, de rebento de relva para rebento de relva) está truncada e alienada por interesses opacos ao Nosso interesse local e relativo.

Não darmos demasiada importância às ideias enquanto formas cristalizadas de conhecimento, mas sim ao processo de pensar e imaginar, colocar hipóteses sobre o real.

Não reificarmos as ideias, não confudirmos
"K" (conhecimento, fenomeno)
com
"O" (realidade, numeno).

E tolerarmos o facto de que nunca, mas nunca, fecharemos "O" com K, por mais atraentes e hipnotizantes que sejam as ideias que defendemos.

As ideias são ferramentas, mapas, adaptações relativas a um ambiente cultural-ecológico.
São mapas, não são o "território".

Contem comigo para demolir ideias, e também para construir novas.

Não consigo fazer outra coisa. Passei da infância para a adolescência a desejar demolir o betão que paulatinamente me roubava os campos e a panorâmica, ao som de bandas rock suburbianas, no meio de putos que tentavam sobreviver ao betão e à oferta de drogas, fica impregnado na substância dos nervos:

"no meio da rua
nua crua e bruta
eu luto sempre do outro lado da luta
...
porque eu nao me rendo
porque eu nao me vendo
nem por ideias nem por dinheiro"

Por sorte, algumas das casas de suburbio estão cheias de livros, estão cheias do espirito humanista, a liberdade de espírito passa por alí. E os livros são mais fortes do que o betão e as drogas, porque tem asas grandes.

Uma vez alados, os putos que aprenderam a voar não se rendem mais à ordem pre-estabelecida das coisas. Sabem que as ideias hegemónicas são como o betão. Roubam os campos e o panorama.

O seu maior perigo passa a ser o excesso de altitude e o calor do sol, como no mito Grego.

4:50 a.m.

 
Anonymous Anónimo said...

Porque é que não implica individualismo, caro colega da Torre? Só aí é que fiquei triste...Não há que ter medo da palavra: até porque, no reconhecimento do indivíduo está o de dois outros que, gozando, o criaram. Individualismo não é egocentrismo ou egoismo; o indivíduo só é tal no reconhecimento do outro... depois volto a isto, agora está um calor do caraças, vou à siesta: um dos mais sublimes exercícios de individualidade!

5:44 p.m.

 
Anonymous Anónimo said...

...já está menos calor!
Retomandoo tema: eu acho porreiro ser indivíduo. Desde pequenino que sempre quis vir a ser indivíduo quando fosse grande, pelo que me fui esforçando por adoptar uma perspectiva individualista das coisas: lá me fui esforçando para não ver os outros como partes minhas, por não me deixar in-sombrar por outros; tentando reconhecer-me o mesmo ao longo de vários e díspares momentos e estados, percebendo, ou não, mas convivendo com as caesuras de cada paradoxo com que me ia deparando nas esquinas da vida...

Um pequeno àparte: é que gosto da palavra caesura, quase tanto como da palavra indivíduo. Não sei, mas acho que rimam bem uma com a outra. Haviadehaver ditados populares que as glosassem: a individualidade da vizinha tem mais caesuras que a minha; a caesura dada não se olha o indivíduo; indivíduo mole em caesura dura tanto bate até que fura; entre indivíduo e a caesura não metas a colher; e por aí a fora.

Bom, o ponto da coisa é que, caro Torres, considero o indivíduo,com o seu individualismo, o único modo de promover e defender liberdade e responsabilidade com tusa... esta última é outra palvra que gosto. Também deve dar para glossar, mas agora vou-me às esquinas da vida.

1:09 a.m.

 
Blogger Nuno Torres said...

Um abraço caro Al!
Tens razão no que dizes,
Mas quando eu dizia individual-ismo, estava sobretudo a referir-me ao ISMO da coisa, tás a ver.

O fanatismo-cegueira-simplismo implicado em todos os Ismos.

Por isso falei também em respeitar o solipsismo, (sem reparar que estava a defender afinal um "ismo" outra vez...)

Os ismos são como a sarna, deixas de coçar de um lado, a comichão aparece no outro.

Mas ainda vou ler melhor a tua contribuição. isto foi só um apontamento à rapidinha.
Siga.

1:16 p.m.

 
Anonymous Anónimo said...

Também os ismos fazem parte da vida. Eu por mim - que gosto muito das esquinas da vida -, sou apologista de que deixem lá os ismos para quem precisa deles, que até pode ser que venhamos nós a precisar também, e em vez de os deitarmos a baixo criemos mais: claro que começo logo pelo esquinismo, mas isso sou eu que, como já disse, gosto muito da coisa.

Bem disseste Torres, já não ma lembra se aqui se ali, que os paradoxos são pontos nodais no psiquismo (olha um ismo porreiro!)... Já viste que se não fosse o cegueirismo da paixão, suposta remeniscência do fanatismo pelo objecto primário, ou pela efervescência estética do mesmo, mas se não fosse isso dificilmente haveria vinculismo com novos objectos? E o que seria do esquinismo sem o novismo? Seria um sequismo e eu ficaria mais triste certamente.

A questão, no fundo, coloca-se na seiva da vida: o que é preciso é tusa: contra o ismo, ismo e meio!

10:39 p.m.

 
Blogger Nuno Torres said...

Estás muito Nitscheziano ó AL. Tusa tusa tusa.
Até já parece aquele ditado popular:

Não há tusa para tanta musa...

Senta-te e ouve esta:
Já experimentaste V? Aqueles comprimidinhos que ajudam a...

Também há umas ervas e raízes para isso. Vai a marraquexe às Farmácias, vendem lá umas raízes de Imbondeiro ou lá que é aquilo, o homem dizia que era toda a noite...E olha que aqueles muçulmanos tem muito que fazer devido como bem sabes à pobre tirania matrimonial de que sofrem de devido à depravação do Profeta....

Mau---ó---méeeeeen

:)
PS: Anda touro, anda cá ó touro!

he he he

3:48 p.m.

 
Blogger Nuno Torres said...

Prontos, eu não gosto de individualismo mas gosto de individuação digamos.

Acho que estás falar de individuação e não de invidualismo.

Separação-individuação.

3:15 a.m.

 
Anonymous Anónimo said...

Pois...azar: porque é mesmo individualismo que quero dizer. Individuação é o processo que o permite. Para ser franco, melhor seria EGOismo, mas essa é uma palavra já muito saturada de lixo moral. Mas, talvez confundas individualismo (ou egoismo) com egocentrismo. Pois, mas a questão é esclarecida com a achega do ferreira: egocentrismo corta a dialética, interna ou externa; individualismo, tal como o penso, implica não só a dialética como o reconhecimento da mesma.

10:16 a.m.

 
Blogger Nuno Torres said...

Prontos Al pa', eu vou explicar o sentido da minha frase
"isto nao implica INDIVIDUALISMO mas respeita o solipsismo", que gerou este diferendo significacional
que aqui nos vai entretendo, e o diabo tecendo, tecendo...

(o diabo tecendo a sua teia de ilusoes fraseologicas, que nos ocupa o hemisferio esquerdo da mona tao bem que nos esquemos do direito)

Bom, o que eu queria dizer e' bastante radical.
O individualismo, enquanto egocentrismo va la' se quiseres, e' uma degeneracao moderna, uma doenca mental social.

Nos somos seres sociais, nao ha volta a dar.
Temos de encarar esse facto. Aquilo que fazemos e' sempre em funcao de um grupo de semelhantes em que estamos inseridos trabalhamos nao para nos mas para o grupo, para a familia, para a tribo, para a nacao. E como fazemos parte desses colectivo e nosso trabalho reverte a nosso favor tambem.
mas apenas secundariamente.

Por isso disse que defender o individualismo nesse sentido e' uma falacia, e e' uma forma de doenca mental. Os doentes mentais sao individualistas. Ja Freud dizia, qq coisa como
"a neurose repete no individuo isolado os mecanismos sociais. e' neurose apenas porque nao e' social, porque os mecanismos tornaram-se indiossincraticos duma carola sozinha...sem contacto com o exterior"

Bom, ja a psicose e' o ataque ao senso comum com os outros (Bion), - alucinar, delirar- e o corte das ligacoes - esquizonar.

Individualismo e' uma doenca mental, como egocentrismo e' uma forma de imaturidade do aparelho psiquico.
O Individualismo que quero focar tem o seu nucleo psicotico no egocentrismo infantil, e depois mais uma neurosezita em cima, uma maniazita (controle e desprezo pelos outros), e pumba, mais uma psicosesita para esquizonar a cena.

SOLIPSISMO, e' o facto de estarmos sozinhos com os nossos "qualias", como dizia o Zebadim no Ferrador.

EU digo-te assim> epa ontem senti isto e isto e isto, grande cena, lindo, tesudissimo, sei la o que.

Tu nunca poderas aceder a minha experiencia. Teras as tuas semelhantes,
mas nunca nunca poderas viver isso que o outro viveu, e isso e'
terrivelmente solipsis.

6:29 p.m.

 
Blogger Nuno Torres said...

Sobre a Hegemonia.
Bruno, concordo, e era isso que queria dizer. O(s) discurso(s) hegemonico(s) internalizam-se,
enquanto formas do nosso pensamento ler e interpretar o mundo.

O discurso hegemonico e suas premissas entranham-se no operar ele mesmo do nosso raciocinio.

Por isso é silencioso, muito silencioso, o barulho do seu trabalhar é o mesmo barulho do pensar.

6:41 a.m.

 

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